Dois anosdepoisda retirada deinvasoresda Terra Indígena (TI) Apyterewa, no sudeste do Pará, o povoParakanãestá reocupando os limites doterritórioe fazendo planos para o futuro.Apesar disso,aindaenfrenta reflexos de anos de ocupação ilegalde produtores ruraise grileiros.O programa Caminhos da Reportagem mostrará, em sua edição desta segunda-feira (2), às 22h30, na TV Brasil, otrabalho dos órgãos governamentais para manter a TI Apyterewa livre de invasores e aorganizaçãodosParakanãparamanterocontrole total de seu território.

As ações de retirada dos invasoresde terras indígenas, chamadasde desintrusão,foramdeterminadaspelo Supremo Tribunal Federal (STF)em 2023.Na TI Apyterewa, o processo começou em outubro do mesmo ano.
De acordo com a Casa Civil da Presidência da República, que coordenou o trabalho conjunto de 20 órgãos e agências federais, as operações de desintrusão ocorreram em nove territórios da Amazônia Legal onde vivem 60 mil indígenas. Segundo Nilton Tubino, que esteve à frente das ações,o processo em Apyterewa foi o mais tenso de todos devido principalmente à interferência de políticos e fazendeiros que tentaram barrar a operação.
“A grande pressão era a quantidade de gado. Nesse processo, foi construída uma vila que era utilizada próximo da base [da Funai]. No meio da terra tinha um posto de gasolina, vários comércios e igrejas”, explica Tubino.
Segundo o Ministério dos PovosIndígenas(MPI), os mais de 2 mil não indígenasque viviam no território foramretiradoslogo nos primeiros meses e, em março de 2024, a TI foi simbolicamente devolvida aosParakanã.
Apesar de não haver mais não indígenas vivendo ilegalmente em Apyterewa,as açõesdas agências governamentais continuam, já que parte do rebanho bovino de fazendeiros locais ainda pasta dentro da TI.
Embora a maior parte das 50 mil cabeças de gado tenha sido retirada pelospróprios pecuaristasdurante a desintrusão, ainda restaram cerca de 1.300 bovinos espalhados em 43 pontos do território, de acordo com monitoramento feito pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
Uma equipe de reportagem da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) esteve na TI Apyterewaem dezembro eacompanhoude pertoo trabalhopara manter o território livre de invasores e do gado ilegal.
Na ocasião, aoperação para a retiradade animais remanescentesno territórioterminou de forma trágica, com o assassinato de Marcos Antônio Pereira da Cruz, um dos 12vaqueiros contratados pelo Ibama para ajudar a tocar a boiada.
Marcos tinha 38 anos, morava na cidade de Padre Bernardo, em Goiás, e tinha um filho de um ano. A irmã mais velha, Luciane Pereira, lembra que “ele sempre falou que era perigoso, que lá no Pará era perigoso. Só que ele confortava a gente, a minha mãe principalmente, falando que ele estava acompanhado por policiais, por pessoas que iriam garantir a segurança dele lá.”
No fim de janeiro, a Polícia Federal anunciou a prisão de um suspeito do assassinatoede atentados contraosindígenas,mas afirmou que as investigações seguem em sigilo.
“A morte do Marcos não pode ficar impune e não ter nenhum responsável identificado nessa ação porque foi um ataque contra o Estado brasileiro, porque ele estava a serviço de uma determinação judicial”, declara Marcos Kaingang, secretário nacional de Direitos Territoriais Indígenas do Ministério dos Povos Indígenas (MPI).
No mês seguinte, o carro da associaçãoTato’a, que representa o povo Parakanã, foi cravejado de balas e o assessor que conduzia o veículo escapou pela mata.Os parakanãsvêm denunciandoameaças, tentativas de invasão e ataques de pistoleiros.Segundo Mamá Parakanã, cacique-geral da TIApyterewa, ocorreramoito ataquesàs aldeiasdepois da desintrusão e um indígena chegou a ser baleado na perna.
“A gente recebia e recebe até hoje muita ameaça. Mas a gente está firme aqui porque essa terra foi demarcada, homologada, registrada. Então essa terra é nossa. Não é do fazendeiro, não é do deputado, não é do senador”, afirmao cacique.
Aáreade 773 mil hectares, onde vivem cerca de 1.400 parakanãs,começou a serdemarcadano início dos anos 1990efoihomologadaem 2007.Mascontinuoua serinvadidanas últimas décadas,principalmente por pecuaristas. Por causadacriação de gado ilegal, a terra indígena é a mais desmatada da Amazônia.SegundomonitoramentodoInstituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), aderrubada da florestaatingiu o ápiceem2022, com102 quilômetros quadrados (km²) dedesmatamento,ecaiumais de90%após adesintrusão, chegando a 7,5 km²de desmatamentoem 2025.
OaeaParakanã saía para caçar e voltavacom as mãos vaziasporque adestruiçãopromovidapelosantigos ocupantes ilegaisespantava osanimais, mas já sente os efeitos positivos da retirada dos invasores.“Agora eu acho que estárecuperando. Agora tem jabuti,porcão,dápragente ver mutum”, conta o indígena.
“Positivamente, as desintrusões têm garantido que os povos indígenas consigam fazer a manutenção devida do seu território, principalmente na pauta de preservação, conservação e reprodução sociocultural”, afirmaocoordenador executivodaArticulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib),DinamamTuxá.O maiordesafio, segundo ele,éamanutenção da presençaestatalparagarantirque ospovos indígenascontinuem em posse dosseus territórios,oque é um direito constitucional.
Marcos Kainganggaranteque asmedidas de proteção aosterritóriosvão continuar e que oMPIvem fazendo interlocuções com outros órgãospara aumentar a segurançana TI Apyterewa.
O Ministério da Justiça e Segurança Públicainformou, em nota, que “está promovendo o reforço do efetivo da Força Nacional de Segurança Pública na região, tendo reforçado a operação em dezembro de 2025 com o envio de efetivo especializado, incluindo profissionais com capacitação em pilotagem de drones, e prevendo novo reforço nos próximos dias, conforme as demandas operacionais”.
Enquanto constroem um plano de proteção do território em conjunto com os órgãos governamentais, osparakanãsavançam na busca de parceiros que ajudem a reparar os danos causados pelos invasores e recuperar as matas perdidas.
WenatoaParakanã, presidente da associaçãoTato’a,diz que o próximo passo éfazer oreflorestamento.“Inclusive, as mulheres já receberam capacitação, como secar a semente, como plantar”, contaWenatoa.
*A equipe da EBC viajou a convite do Ministério dos Povos Indígenas
