O Circo de Tradição Familiar foi reconhecido nesta semana como Patrimônio Cultural do Brasil peloConselho Consultivo do Patrimônio Cultural, doInstituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), e vai constar no Livro de Registro das Formas de Expressão.

Espalhadapor todo o país,essa manifestação culturalé descritapelo Iphancomo itinerante,organizada em torno de núcleos familiares ede transmissão oralde saberes, técnicas, modos de fazer e formas de convivência entre gerações.
No entendimento do conselho consultivo, favorável ao registro, essa manifestação culturaltem relevância nacional, tanto pela força na promoção de espetáculoscomo pelaspráticas lúdicas e pela memória social.
Pioneirismo
A decisão tomada emreunião no Palácio Gustavo Capanema, no centro do Rio de Janeiro, na última quarta-feira (11),está ligada à luta das familias que mantêm essa tradição. Fundado no Paraná, em 1991, oCirco de Tradição Familiar Zanchettini liderou esse processo.
A companhia começou pelo trabalho deWanda Cabral Zanchettin e Primo Júlio Zanchettin, e tem sidomantido ao longo do tempo pelos dez filhos e filhas do casal e seus descendentes. Desde 1993, Wanda encabeçoua luta para que a categoria recebesse o reconhecimento que chegou mais de 30 anos depois.
O pedido oficial de registro foi protocolado por ela no Iphan em 2005, emobilizou famílias circenses, associações, pesquisadores e instituições públicas. A decisão desta semana, no entanto, veio após a sua morte, em 2017.
Em entrevista à Agência Brasil, Edlamar Maria Cabral Zanchettin, de 68 anos, filha de Wanda e uma dasherdeiras da tradição,reivindica o protagonismo da família nessa luta.
“Foi a nossa família quem protocolou, quem trabalhou, foi a Brasília, fez reunião. Tudo fomos nós, mas fizemos na abrangência de todos os circos brasileiros, principalmente, a nossa maior luta é para o reconhecimento dos nossos antepassados”, disse ela, que celebrou:“Écomo um Oscar para o circo brasileiro, porque é para todos”.
Ela lamentou que a mãe não tenha testemunhado a vitória.“Lutou muito por isso, mas, infelizmente, não chegou a alcançar este momento de glória. Foi apessoa que foi na frente, nos empurrou, nos deu força e chegamos, graças a Deus, a esse reconhecimento”.
Origem
Em 1949, Wanda Cabraltinha 18 anos eatuava no circo de ciganos Irmãos Marques junto com a mãe e os irmãos.Naquele ano, o italiano Primo Júlio conheceu Wanda e se apaixonou por ela, os dois casaram e, com os parentes da mulher, montaram o Circo Teatro Gávea.
“O circo era pequeno, mas, ali, a gente aprendeu tudo. A mãe passava as técnicas pra gente. Ela sabia tudo sobre circo e sobre as artes”, contou Erimeide Maria, de 65 anos, que destacou que a mãe cresceu imersa nessa cultura.
Em 1991, quando o marido morreu,Wanda batizou a companhia deZanchettini para homenageá-lo.
“O pai a acompanhou nessa trajetória, como artista e palhaço. Somos dez filhos, cinco mulheres e cinco homens, e a gente foi nascendo e crescendo em barracas em volta do circo”, revelou Erimeide, que foi trapezista, cantora, acrobata, atriz, entre outras coisas.
Apesar dos apertos, ela contou que a convivência em família sempre foi boa entre os irmãos Edlamar, Erimeide, Márcia Aparecida, Solange Maria, Áurea, Silvio Marcos, Sérgio, Jaime, Márcio e Amauri.
“É uma luta difícil e continua sendo para todos os circenses,muito trabalhosa, mas com a união dos irmãos, mãe, pai e agregados, a gente teve sempre uma vida feliz em circo, que é nossa grande paixão, nosso amor”, pontuou Erimeide.
Gerações
A renovação no circo familiar é constante e, atualmente, a geração mais nova já faz parte do elenco do Zanchettini.
“Os mais novos vêm chegando, e a gente vai repassando toda a história do circo, com suas nuances. Tem uma sabedoria muito forte dentro do circo, um linguajar nosso. Tudo tem um propósito”, observou a apresentadora.
Os mais jovens da família estão mantendo a tradição e fazem suas carreiras profissionais no circo. Entre os sobrinhos, oúnico que saiu do Zanchettinifoi para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, para trabalhartambém como artista circense.
“É de geração em geração. Vem da minha avó, minha mãe, meu pai, nossa família toda. Dez irmãos caminhando pelo mundo afora, montando e desmontando circo, enfrentando estradas, fazendo espetáculos, ensaiando, pegando terrenos cheios de barro e outros bonitos. É uma história muito longa de uma vida toda”, acrescentou Erimeide.
Dificuldades
Nas viagens a vários estados do Brasil e até fora do país, como o Paraguai, Argentina e Bolívia, Edlamar disse que uma das dificuldades do circo tradicional éa concorrência com apresentações de celebridades eshows gratuitos.
“Esses não têm o circo tradicional brasileiro, do palhaço da cara pintada, do trapézio, do globo da morte, do malabarismo, do contorcionismo. A gente leva o tradicional. Não temos personagens, não temos celebridades de TV, não temos dinossauros. Nós somos raiz”, afirmou.
Outra questão são os custos, como impostos e taxas cobradas pelo Poder Público. “Eles nos cobram como se fôssemos edificados, uma farmácia, um supermercado ou nos cobram como evento grande, não como cultura”, reclamou a administradora. “A prefeitura cobra o uso de solo, e a gente paga tudo adiantado. Se chover, a prefeitura já ganhou, e a gente, não”.
Os obstáculossão os mesmos enfrentados pormuitos circos familiares do Brasil, e Edlamar lamentou quemuitos circos pequenos e tradicionais lidamcom dificuldades ainda maiores por não serem famílias tão numerosas.
“A gente já passou por vários tipos de falência, recuperamos tudo e recomeçamos de novo. É um amor tão forte e um sentimento poderosopelo circo que a gente não sabe de onde vem. A gente não conseguiria viver longe do circo”, pontuou Erimeide.
A expectativa de Edlamar é que esse cenário dedificuldade financeira mude após o reconhecimento.
“Fica mais fácil falar com o prefeito para ver o que ele pode fazer dentro do regulamento do Iphan. Seja um preço menor, um terreno da prefeitura gratuito. Esse reconhecimento não é qualquer um que tem eserá de grande valia para nós”, avaliou.
